terça-feira, 26 de outubro de 2010


Imprimi aquelas nossas fotos
Para guardá-las na caixa.
Aquela caixa que lhe falei, onde guardo
Minhas 100 cartas de amor
Umas 6 que contém ódio
E duas de rancor
Aquela caixa de fatos insólitos
Dos tempos loucos da minha juventude
Em que eu ardia nas praças
Esperando uma velhice cálida

Eis-me velho
E ainda louco

Mas descobri, atônito,
Que não posso guardá-la
Na minha caixa
Lá está o passado
Distante, de outro século,

Então resolvi guardar-lher
Proteger do frio, da chuva,
(Queria proteger do mundo, mas não fui feito anjo da guarda
Fui feito gente, fraca)

Mas não numa caixa, dentro de um guarda-roupa,
onde habitam o escuro, aranhas, pó

E você não é feita desse pó
Mas de outro
Do pó de Apolo, deus da sabedoria, e, certamente
Das artistas meigas das linhas e das palavras

Então, comprei-lhe uma caixa de vidro
E quando eu tiver uma casa
(Nem precisa ser casa, basta que eu tenha uma parede)
Vou pôr à vista de todos
E dizer, orgulhoso, que faz parte de meu presente!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Sei que está em algum lugar

Fui em bibliotecas, igrejas
Fui em sindicatos e púlpitos
Cavei debaixo de altares
Revolvi cascalho e violei tumbas

Sei que não há de falhar

Revisei todos os tomos de ciências
Alquimia do tempo, lógica da vida
Passei por todas as artes, sem talento,
Mas buscava o que está além da arte

Sei que está por aí, toupeira

Descubro, atônito,
Que o que procuro
Não pode ser encontrado
O que procuro
É que nos encontra
Numa esquina perigosa
Numa tarde de céu azul
Caindo como um raio

Descobri que falho
Mas está por aí

umas fotos bonitas que eu fiz





Desilusão


Nas ruas
Cenhos e austeridade
Pejo

Olho os jornais
Buscando a saída
Mas cancelaram a minha assinatura
TV? Não possuo mais, ela quebrou

Nos livros, me perdi
Buscava caminhos onde havia nuvens
Botava os pés em ventos sem rastros

Ah, poderia organizar uma greve, uma revolução
Um golpe de estado
Mas perdi o emprego
E escolhi o ócio
Não tenho salário nem vivo do trabalho
Vivo de crer
Que ainda há algo para ser crido
Que valha a pena
Que faça sentido

quinta-feira, 23 de setembro de 2010


Hoje eu peso as coisas

Numa balança

Queria por o coração de um lado e uma pluma noutro

Mas não tenho plumas, só penas

E não há coração, dei a outrem

E o fizeram em pedaços

Então, ponho as minhas mãos calejadas

Em um dos pratos

Pesam, apesar, magras

E no outro, que pôr?

O sal que me sai dos olhos?

Ou as rugas que cobrem as faces?

A prata dos cabelos?

Algum velho retrato?

Ah, bobagem, não ponho nada

Deixe de tristeza e sonho

Me cansei de tanta besteira!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


Mas não mais peço amor

Nem amado sou, creio

Ah, sou

Mas não daquele jeito

Prometi rosas, cânticos, poemas

Bebedeiras trágicas

Prometi serenatas

Com os boêmios mais vagabundos

Prometi chorar até

Com lágrimas salgadas

Retiradas do vale de lágrimas mais triste

Das novelas, do cinema, dos dramas e dos romances

Mas soaram falsas minhas promessas

E quando a tive, novamente,

Não mais amava-a

Ah, amasse-me como outrora

Não seria recíproco

Tudo é como não pode ser

E o que deve ser

Não é