quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Sei que está em algum lugar

Fui em bibliotecas, igrejas
Fui em sindicatos e púlpitos
Cavei debaixo de altares
Revolvi cascalho e violei tumbas

Sei que não há de falhar

Revisei todos os tomos de ciências
Alquimia do tempo, lógica da vida
Passei por todas as artes, sem talento,
Mas buscava o que está além da arte

Sei que está por aí, toupeira

Descubro, atônito,
Que o que procuro
Não pode ser encontrado
O que procuro
É que nos encontra
Numa esquina perigosa
Numa tarde de céu azul
Caindo como um raio

Descobri que falho
Mas está por aí

umas fotos bonitas que eu fiz





Desilusão


Nas ruas
Cenhos e austeridade
Pejo

Olho os jornais
Buscando a saída
Mas cancelaram a minha assinatura
TV? Não possuo mais, ela quebrou

Nos livros, me perdi
Buscava caminhos onde havia nuvens
Botava os pés em ventos sem rastros

Ah, poderia organizar uma greve, uma revolução
Um golpe de estado
Mas perdi o emprego
E escolhi o ócio
Não tenho salário nem vivo do trabalho
Vivo de crer
Que ainda há algo para ser crido
Que valha a pena
Que faça sentido

quinta-feira, 23 de setembro de 2010


Hoje eu peso as coisas

Numa balança

Queria por o coração de um lado e uma pluma noutro

Mas não tenho plumas, só penas

E não há coração, dei a outrem

E o fizeram em pedaços

Então, ponho as minhas mãos calejadas

Em um dos pratos

Pesam, apesar, magras

E no outro, que pôr?

O sal que me sai dos olhos?

Ou as rugas que cobrem as faces?

A prata dos cabelos?

Algum velho retrato?

Ah, bobagem, não ponho nada

Deixe de tristeza e sonho

Me cansei de tanta besteira!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


Mas não mais peço amor

Nem amado sou, creio

Ah, sou

Mas não daquele jeito

Prometi rosas, cânticos, poemas

Bebedeiras trágicas

Prometi serenatas

Com os boêmios mais vagabundos

Prometi chorar até

Com lágrimas salgadas

Retiradas do vale de lágrimas mais triste

Das novelas, do cinema, dos dramas e dos romances

Mas soaram falsas minhas promessas

E quando a tive, novamente,

Não mais amava-a

Ah, amasse-me como outrora

Não seria recíproco

Tudo é como não pode ser

E o que deve ser

Não é


Teus braços de linhas

Tem dedos ligeiros

Em “graciosas” mãos

De uma Graça em pessoa

Deles saem flores, pântanos

Criaturas sorridentes

Caricaturas engraçadas

E cores infindáveis

Em traços preto-e-branco

Como consegues, Moça?

Como consegues ser tão graciosa

Fazer a gente te amar assim de graça

E sorrir feito uma criança

Quanto te vejo na praça

Como consegues?

Penso que a tua mais bela obra-prima

De teu ofício de arte que nunca terá

Será o desenho do teu sorriso

Gravado na minha alma

Lá onde guardo as coisinhas simples

E banais e graciosas

Que fazem a vida valer a pena!


Acordo à noite, friento e pavoroso

E me assusta o ruflar de asas de uma ave

Aos poucos o teu cabelo em chamas, gracioso

Me vêem da memória e fere alma como um sabre


Eu a sonhava e era um pesadelo

Pois eu a tinha em meus braços como a vida

E a perdia, velozmente, como a morte

E ela queimava meus olhos dizendo adeus


Se queixando que não valho um níquel, um cobre

Ia embora por meu descaso e desleixo

E eu, odiado filho de Morpheus


Acordava, sôfrego, com o peito arfante

Ah, como teu calor me deixa em brasa

E como teu pensar me causa asma!