segunda-feira, 5 de julho de 2010
noite longa
terça-feira, 15 de junho de 2010

Mais uma vez a vida me chama
E eu que não sei dizer não
Vou
Cautela, dizem os ladinos
E eu que da estrada
Sou
Vou sem despedidas, bolos, festas
Deixo um chão sem rastros
Pó
Como se não tivesse existido
Serei uma lembrança esquecida
Só
O que poderia ter sido e não foi
Onde poderia ter ido e não foi
Oh!
Mas é assim
Fazer o quê se não tem jeito
Se não tem quem ajeite
Irecê, 11 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Fechando Portas
Ah, se a vida me sanasse
A dúvida que me perturba
Estaria a interrogação morta
Mas que importa
O que me valeria
Era não o fechar a janela
Mas o abrir da porta
Ah, me valeria tanto
Tanto que nem conta
Eu queria
Era uma exclamação graúda
Nessa vida sem ação (vida-inação)
Me valeria mais
Que o cigarro tremulando fumaça
Me valeria mais
Que o que é dado de graça
Mas de grado coração
Me valeria tão
Quanto aquilo que se dá
Sem pedir, nem pensar
Nada em troca
Me valeria mais
Que o valor que à vida
Dá a coisa quase morta (teimosa)
Uibaí, 05 de março de 2009
terça-feira, 1 de junho de 2010
As vezes, eu fico aqui pensando
Monologo da Humilhação. Do Auto da Canabrava

Veja, cá, seu moço
Que há coisas de aviar
Tecer com cada palavra
A teia do entendimento
Sem retalho, sem remendo
Pras idéia clariá
Boto cada palavra
Sem fazendo de rogado
Num sô dotô istudado
Vivo das terras, da lavra
Da labuta nas caatinga
Que é mais braba que as braba
Meu ofício não é nobre
Mas meu andar é honesto
E se me carece cobre
E é muito pobre meu fardo
Sempre ensino os meninos
Que seja sempre humilde
Mas nunca seje humilhado
Num é que me aconteceu
De lá nas bandas do Peixe
Onde a água nunca falta
Por mais que o sole sapeque
E que a madeira deite
Tem havido uns boato
De gente que é inxirido
Que não tem o que fazer
E de tanto os outros olhar
Ficam os seus esquecido
Que anda sumindo coisa
Banana, mandioca, milho
aipim, cabra e batata
E até mesmo novilho
E que a culpa da sumição
Vinha das precisão
Porque passa os meus menino
Ora, diz se isso num reta
Um cabra igualzin eu
Que se for pra brigar, mata
Se for pra ir pra guerra, adeus
Mas que nunca, nunquinha
Ia aceitar um roubo
De minhas mãos ou dos meus
Pois Deus é misericórdia
E só te dá um tanto fardo
Que caiba no lombo teu
Vicente Veloso. Do Auto da Canabrava
Eu sou Vicente Veloso
E vivo dentro dos mato
Fui escravo, fugitivo
Hoje, sou livre de fato
Vim de cima da montanha
Do arraial do Ventura
Pra lá de Morro do Chapéu
Trabalhava lá nas mina
Pertin de Jacobina
Onde as pedras trisca o céu
No ano quarenta e quatro
Do século mil e oitocentos
Eu vivia como escravo
Trabalhando como jumento
Vivendo desesperado
De tanto, tanto trabalho
Fazendo serviço pesado
Fosse noite ou sol a pino
Nunca acostumei com o fardo
Que tinha no couro grudado
Desde o tempo de menino
Um dia me perguntei
Se aquele era meu destino
Trabalhar até ficar velho
Trabalhar desde menino
E não vê o resultado
De tanto, tanto trabalho
Trabalhar até não prestar
Até ser posto de lado
Pois o dono do escravo
Mandado do céu não é
Depois de esgotar o sujeito
Quinze, vinte ano no eito
Lhe joga no meio da rua
Pra viver de esmolé
Pois o escravo quando velho
Já não guenta mais serviço
E fica veio, jogado
Como fosse um estrupiço
Um trem velho mulambento
Melhor não ter essa sina
Ter morrido pequenino
Um dia me perguntei
Se era aquele meu destino
Então, desorientei
E fiquei desplaneado
Daquela minha questão
Arrumei o resultado
Mas fiquei matutando
Sem saber se o fazia
Sem saber se me matavam
Ali mesmo na freguesia
Mas um escravo morto
Era de pouca valia
Não foi de caso pensado
Não foi uma maldade
Foi vontade de justiça
Dessas que anima e atiça
Que me chamou de verdade
E me disse, assim, baixinho
“Vicente, sabe a verdade
Está aí, em tu, aí dentro
Dentro do seu coração
Tanto a sua liberdade
Quanto a sua escravidão”
Então, animado e afoito
Fiquei com meu sangue quente
Recebi umas broncas
Do que se dizia meu dono
Que aquela minha moleza
Sofria por dor de dente
Era mode uma aguardente
Que sumiu de sua cabana
Eu disse, não, não fui eu
E não irei trabalhar
Ta vendo cá pra esse dente
Assim não vou agüentar
O diabo que tale dono
Pensou que o velho Vicente fosse
Não julgou novo o Vicente
E tentou dar-me com o açoite
Ali, mesmo, decidi
Não seria mais escravo
Não precisava de lei
Pra me haver libertado
Eu mesmo, preto Vicente
Orgulho da cor negra, carvão
Me libertei das correntes
Que me prendia não o braço
Mas o coração e a mente
E a espada da justiça
Em forma de velho facão
Usou das minhas duas mãos
Consegui minha liberdade
E dei, adeus, sem saudade
Para aquela escravidão
Aí, vixe, cai no mato
Subi serra, desci serra
Passei lajedo, beirada
Que beiradeiro não beira
Passei caatinga fechada
Sem lavoura nem fazenda
A não ser os gado e as roça
Que deus do céu, mesmo inventa
Caí no mato sem rumo
Caí no mato sem dó
Pois sabia que deus é grande
E o mato é muito maior
Me afastei o mais possível
Das terra de Jacobina
E de Morro do Chapéu
A apesar de ter passado
Fome e sede lá nos mato
Não ser mais um escravo
Me fazia sentir no céu
Valei-me São Benedito
Nossa Senhora do Rosário
Valei-me Jesus Cristo dos preto
Que padeceu no calvário
Cheguei lá num boqueirão
Duma serra que de longe
Era meio que azulada
Aqui ou então acolá
Um lajedo a branqueava
E embora, fome passasse
E o cansaço apertasse
A noite fria enginhava
O couro nu desde a tarde
A dor cresce o pé de pau
Os arvoredo e os animais
E nos homens foi a dor
Que trouxe a liberdade
Flávio Dantas Martins
quarta-feira, 26 de maio de 2010
uma canção (sem violão) escrita na madrugada feirense
diga que me odeia, que me despreza
desdenha quem tem apreço
por você, que não merece
mas não assuma nunca
que me pensa em sonho
que me come com os olhos
que me bebe com os dedos
que me aperta nos braços
que me morde os lábios
que me puxa os cabelos
ao menos
em teus devaneios
não diga
jamais
que me quer
que me pensa
que me persegue
que me espera
que me implora
prefiro que negue
até a morte
que me deseja
aceito que sempre diga não
quando quer sim
imploro que não faça
nenhuma loucura
por seu apreço a mim
finja
que lhe gosto atriz
por um triz
fulgaz
viva
nos meus poemas de giz
mas não morra
nos meus instintos animais