Impossível esquecer. Por certo a vista do Morro Branco, para quem possui Uibaí nas entranhas, sua poeira, seus horrores e sua poesia no sangue, é belíssima. "Corre nas vossas veias, sangue velho dos avós! Vós amais o que é fácil, eu amo o longe, a miragem, as planícies, as tormentas e os desertos" (José Régio). Desde a primeira vez que fui, lá pelos idos de 1993 ou 1994, tenho as lembranças das dezenas de vezes que fui lá gravadas como fogo na memória. Mas aquela vez foi especial.
Não era o vinho, certamente. Sempre foi de costume levar alguma coisa para beber. Foi no Morro Branco que tomei o pior porre da minha vida, durante a Semana de Arte de 2004. Caribé, vinho, abaíra e cinquenta e um. Como de costume, errei o vinho: supunha que minha companheira de viagem, cidadã do mundo, apreciava os secos. Engano! A diáspora parece só ter lhe acentuado o amor pela sua terra e pelo seu costume por vinhos açucarados.
Quase posso repetir as palavras! Não que ela seja mais especial do que outros meus amados. O meu amor nunca lhe foi segredo, mas suas palavras, ah, sempre as guardo! Não só por que suas ideias são incríveis, suas impressões do mundo interessantes e a acho mais incrivelmente inteligente do que bela (e a acho extremamente bela!). Mas suas palavras quando falam de mim me transportam para o fundo de mim mesmo. É como se ela adentrasse na minha alma. Minha impenetrável alma! E ela é mais poderosa que o alcool em me desnudar.
Nao que ela me entenda. Sou uma profunda incógnita. Mas ela me adentra, tropeça, tateia o que me habita. E em meio a toda escuridão, é como se ela me enxergasse. E quando ela me olha, me vejo. Em seus olhos negros, consigo me ver. Mas logo me perco. Ela também! "Pelas minhas cercanias / passeio - não me freqüento." (Thiago de Mello).
Eu consigo vê-la. Minha escuridão me permite ver com clareza o que há por trás dos olhos. E ela é uma dessas almas com a profundeza dos oceanos. Mar de tormentas! Há pessoas que são oceanos, mas a maioria são riachos e ribeiras. Amo os riachos: são belos, calmos, raras vezes perigosos. Mas o mar: ele possui essa capacidade de lhe tragar pra suas profundezas. Mais ou menos como ela me faz.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
Haikais
Uns haikais
Sempre gostei de haikais. Desde que os conheço, pelo menos, há uns bons anos, quando, em meio à adolescência, escrevia com finalidades terapêuticas, artísticas e filosóficas. Em meio à grande viagem de descoberta da literatura, esse buraco negro do qual nunca se volta o mesmo a cada mergulho, os soube. Adorei: sintéticos, objetivos, diretos; tudo que eu não era e não sou. talvez com uma irmandade ancestral com a quadra popular lusobrasileira (muito comum no cancioneiro popular do Brasil, mas português o bastante para Fernando Pessoa ter se exercitado algumas vezes nas "Quadras ao gosto popular". Exercitei algumas vezes, mas não obtive grandes êxitos. Minha prolixidade levava sempre a um estilo extenso, prolixo, floreado. Agora que me afasto gradativamente da minha juventudade ariana e me reconcilio com uma personalidade mais taurina, filho da terra, do amor, do pragmatismo, das coisas sólidas, retomo o estilo.
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Separo o que era
Do que sou, por ora
Sempre gostei de haikais. Desde que os conheço, pelo menos, há uns bons anos, quando, em meio à adolescência, escrevia com finalidades terapêuticas, artísticas e filosóficas. Em meio à grande viagem de descoberta da literatura, esse buraco negro do qual nunca se volta o mesmo a cada mergulho, os soube. Adorei: sintéticos, objetivos, diretos; tudo que eu não era e não sou. talvez com uma irmandade ancestral com a quadra popular lusobrasileira (muito comum no cancioneiro popular do Brasil, mas português o bastante para Fernando Pessoa ter se exercitado algumas vezes nas "Quadras ao gosto popular". Exercitei algumas vezes, mas não obtive grandes êxitos. Minha prolixidade levava sempre a um estilo extenso, prolixo, floreado. Agora que me afasto gradativamente da minha juventudade ariana e me reconcilio com uma personalidade mais taurina, filho da terra, do amor, do pragmatismo, das coisas sólidas, retomo o estilo.
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Em que terra hei de viver?
Medito com meus botões
Todas as terras são ilhas e os homens solidões
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No cais do teu amor
Descansei da lida, mas a partida
É a sina do pescador
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Na peneira da memóriaSeparo o que era
Do que sou, por ora
segunda-feira, 9 de julho de 2012
meus copos estão sempre cheiosem dias de festacerveja, cachaçauns perdem-se, outros parteme como são frágeis as taçasem noites de luavinho, batomecos de palavras docese noite, adentrandofungados torpesem dias de solágua fresca, alíviofadiga e todaa herança adâmicaem crisescheios de tempestadesmeus copos estão sempre cheiossempre transbordam de saudade
terça-feira, 29 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
não é exatamente uma casinha
é algo um pouco maior
não é exatamente um camponês
mas leu muitos livros sobre
não é exatamente o passado
mas guarda em todas as suas marcas
exceto os postes, fios, a água encanada, os carros e as estradas de rodagem
não é exatamente água potável
mas salva o povo sedento que não mais bebe
não é exatamente plano
é um desejo de ter algo que não pode
e assim, sempre ter um desejo, e, portanto, um motivo a mais pra viver
não é exatamente amor
mas que parece, parece
Mortos vivos
é meu hábito advinhar o passado
o vislumbro entre vestígios mortos
e ouço, supreptício, gritos de vivos
o passado é meu ofício
tento pensar no presente, no futuro
uma casa, um chiqueiro de cabras
uma metropole, jornais, um furo
mas não fui feito pra isso
tenho a memória de vício
assento as bases do livro
que não redijo, somo as notas da conta
que não pago, batizo os muitos filhos
que não registro
não é possível esperar nas janelas de edifícios
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