sábado, 26 de março de 2011

Mortos vivos


é meu hábito advinhar o passado
o vislumbro entre vestígios mortos
e ouço, supreptício, gritos de vivos
o passado é meu ofício

tento pensar no presente, no futuro
uma casa, um chiqueiro de cabras
uma metropole, jornais, um furo
mas não fui feito pra isso
tenho a memória de vício

assento as bases do livro
que não redijo, somo as notas da conta
que não pago, batizo os muitos filhos
que não registro
não é possível esperar nas janelas de edifícios

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Eu tenho medo

Tua delicadeza é tão intensa

E tua beleza, tão frágil

Tenho medo que a força do meu amor

Te parta em pedaços

Eu tenho medo

Que teu sorriso seja mais

Fruto do eu-palhaço

Que do peso dos meus ossos

E dos abraços

E assim, te machuque

Oh, coisinha amável

Temo tanto

Não te fazer feliz

O mais que posso

Uibaí, 11 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010




Ela parece que saiu de um conto

E faz poesia

Me aborrece quando some

Um fastio

Me assombra quando aparece

Com heresias

Pois ela é santa e é rebelde

Entender? Desafio!

Ah, outro dia ela disse

“Não sei viver assim

Muito menos de outro modo”

E eu não a aconselho

Nem reprovo

Pois sei que a flor

Ainda não saiu do botão

Renovo os votos de felicidade

Mas sei que o trabalho e sofrimento lhe esperam

Pois os medíocres são felizes

E os grandes se realizam

E ela é grande

Ela é deste tamanho, não

Ela é bem maior

Que todos

Ai, que sorte eu tenho de tê-la na minha vida


Amor acontece, como acontece a chuva

domingo, 5 de dezembro de 2010

Morro Branco





Eu não sei ao certo o que dizer
só sei que há de ser
coisa importante!
Eu não sei que palavras sairão
mas são inspiradoras as noites de verão
no inverno sertanejo
Eu não sou o mesmo que antes
e hei de fazer
o que há de ser feito
uma palavra, um abraço, um beijo!

Flávio Dantas Martins
Feira de Santana, 06 de dezembro de 2010




Um "quero, mas não posso"
a mim não diz nada
se queres, solte as asas
e venha encarnar meus ossos

Mas, porém, se não sabes
o que queres, pois não quer
sei que és, pois não, mulher
e isso por si explica o que fazes

só não me brigue ou mate
sem, depois, fazer as pazes
e tornar uma só, duas faces
e dois corpos em vênus, não marte!

ah, me abra feridas que não caibam gazes

domingo, 21 de novembro de 2010

que há de se fazer?
todas as cortinas foram comidas pelas traças
os buracos foram fechados pela prefeitura
as portas falsas, de tão falsas, não dão em canto nenhum
as arestas aparadas, sem cantos
as feras não tem apetite
e agora?

a festa prossegue, mas sem lugar pra si
a luz agora vem de grandes moinhos, energia limpa, não-poluente
o povo passa, mas não dá atenção alguma

seus cartões não são autorizados
seu dinheiro perdeu o valor

que há de se fazer?
assim sinto
esse fastio
vazio

ah, vida besta do diabo!