segunda-feira, 20 de setembro de 2010


Acordo à noite, friento e pavoroso

E me assusta o ruflar de asas de uma ave

Aos poucos o teu cabelo em chamas, gracioso

Me vêem da memória e fere alma como um sabre


Eu a sonhava e era um pesadelo

Pois eu a tinha em meus braços como a vida

E a perdia, velozmente, como a morte

E ela queimava meus olhos dizendo adeus


Se queixando que não valho um níquel, um cobre

Ia embora por meu descaso e desleixo

E eu, odiado filho de Morpheus


Acordava, sôfrego, com o peito arfante

Ah, como teu calor me deixa em brasa

E como teu pensar me causa asma!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010


Muitas vezes a vida me acontecia

Eu me perdia, eu chorava riachos

Hoje eu rio e mar

Perdido, me acho


Ah, como sou velho

Como não sei nada

E possuo fastio em aprender

Sou rabugento e desagradável

E meus olhos não brilham

E não sei ser criança hora alguma

Ah, como sou antiquado e ultrapassado

E não sei usar os termos da minha geração

Para designar o amor e o engano

E ilusão e o preconceito

A idiotice e a superficialidade

Ai! Queria não ser velho

E talvez até pensassem em ser jovem

Talvez até achasse graça

Em alguma coisa em tudo isso?

Feira de Santana, 12 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Crendice



Mais uma tragada dessa saudade cheirosa. Guardo uns sonhos no canto do quarto. Procuro a caixa de cartas velhas e releio como se tivesse voltado a viver. Minha coluna, ereta, dói e procuro um desconforto na inexatidão. Rumino a dor. Desgosto áspero. Arrependimento em ter acreditado. Traição de todos, sim, mas vinda de mim mesmo. Sim. Me iludi, preguei cartazes de circo na transparência da vidraça. Vergonha de ter crido. Se meus papéis se queimassem agora nas mãos dela...

23-12-2003

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Persephone


Arranco a vida de uma flor

E antes dela perecer, desfaço suas pétalas

Bem-me-quer, mal-me-quer

Com a sofreguidão de bacantes acéfalas

Todo coração

E a flor vingativa

Parece ecoar meu mal-me-quer

E me nega, a cada pulso, essa mulher

E a escuridão me abriga

E só desejo o sol

E ela é céu, é brisa, é mar

É toda a força natural

Que faz crescer as árvores frondosas

E muito mais destrói, decompõe e desfaz

E me instiga à perseguição até furar os pés

E parece que recuso a ouvir quem é

Quanto mais mal-me-quer

Mais bem me faz

Feira de Santana, 01 de setembro de 2010


Assombra-me com teu saber

Que precisa em poucas linhas quem sou

Mesmo sem saber disso

E eu não sei sabê-la

E fico triste, pois não retribuo

A alegria que ela me dá

Mas, por outro lado,

É isso que nela me encanta

Não sabê-la como ela me sabe

Mistério! Misteriosa é a madrugada

Secreta! Segredo é a maçonaria

Oculta é a magia da ficção

Ela me revela a vida

E se desfaz como a névoa

Da manhã da serra

Serra da minha terra

De montanhas que chamam morros

E pântanos que chamam brejos

Na minha terra

Chamaram ela

De danada

Mas ela é pura e santa

Como uma criança

Doce

(Mas parece tanto com a Mulher que Não Conheço)

Eu não a entendo

E quero entendê-la

E não posso

Feira de Santana, 01 de setembro de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

noite longa

uma mesa cheia de livros
cadernos, canetas, notas, apontamentos
um copo sujo de café, cinzeiro
a fumaça vã a expulsar os tormentos

uma noite fria no inverno feirense
a vida a espreitar-me pela fresta da noite
gatos quebrando o telhado e gemendo
o mais terno gozo do mais vil açoite

e eu penso na vida que tive
no que me leva e me trás
por estradas que já percorri mil
vezes além dos meus ancestrais

e me pergunto, pois, se a vida
é um jogo de ambições imensuráveis
a apostar-se contra tudo o nada
em prol de sonhos tão admiráveis

ou é renunciar a toda a vileza
e mesquinhez de trabalhar com afinco
não fazer o que quer para nada
e, sem necessidade, encontrar-se rico

e soçobrar preguiçoso no rede
ao som de um modesto acalanto
de uma mulata dengosa e, sentir
o cheiro do café e o fumo queimando

e me transporto, dias adiante
vendo-me glorioso e anormal
desfrutando dos amores e amantes
ou então, me vejo fracassado e banal

e não sei resolver tamanho dilema
sem saber se descanso ou usufruo
dos frutos do trabalho que não fiz
viver o essencial ou o superfluo

enquanto isso, os gatos gemem
cortando com seus ruídos a noite espessa
e os livros esperando-me na mesa
e eu a espera de algo que aconteça