segunda-feira, 7 de junho de 2010

Fechando Portas

Ah, se a vida me sanasse

A dúvida que me perturba

Estaria a interrogação morta

Mas que importa

O que me valeria

Era não o fechar a janela

Mas o abrir da porta

Ah, me valeria tanto

Tanto que nem conta

Eu queria

Era uma exclamação graúda

Nessa vida sem ação (vida-inação)

Me valeria mais

Que o cigarro tremulando fumaça

Me valeria mais

Que o que é dado de graça

Mas de grado coração

Me valeria tão

Quanto aquilo que se dá

Sem pedir, nem pensar

Nada em troca

Me valeria mais

Que o valor que à vida

Dá a coisa quase morta (teimosa)

Uibaí, 05 de março de 2009

terça-feira, 1 de junho de 2010


As vezes, eu fico aqui pensando
no seu olhar de desprezo que me ignora
ou faz cara de espanto e me acha estranho
mas no íntimo do ser me adora

Outras horas, fico só de imaginar
se isso que não é pode um dia ser
um verso feito aqui, outro acolá
pra provar que que ela era você

Mas no fundo o que fico vendo
é o nada que me mora
é o tudo que me atropela

É a pobreza que me habita
é o cigarro que não se pita
e o vazio que me devora

Monologo da Humilhação. Do Auto da Canabrava


Veja, cá, seu moço

Que há coisas de aviar

Tecer com cada palavra

A teia do entendimento

Sem retalho, sem remendo

Pras idéia clariá

Boto cada palavra

Sem fazendo de rogado

Num sô dotô istudado

Vivo das terras, da lavra

Da labuta nas caatinga

Que é mais braba que as braba

Meu ofício não é nobre

Mas meu andar é honesto

E se me carece cobre

E é muito pobre meu fardo

Sempre ensino os meninos

Que seja sempre humilde

Mas nunca seje humilhado

Num é que me aconteceu

De lá nas bandas do Peixe

Onde a água nunca falta

Por mais que o sole sapeque

E que a madeira deite

Tem havido uns boato

De gente que é inxirido

Que não tem o que fazer

E de tanto os outros olhar

Ficam os seus esquecido

Que anda sumindo coisa

Banana, mandioca, milho

aipim, cabra e batata

E até mesmo novilho

E que a culpa da sumição

Vinha das precisão

Porque passa os meus menino

Ora, diz se isso num reta

Um cabra igualzin eu

Que se for pra brigar, mata

Se for pra ir pra guerra, adeus

Mas que nunca, nunquinha

Ia aceitar um roubo

De minhas mãos ou dos meus

Pois Deus é misericórdia

E só te dá um tanto fardo

Que caiba no lombo teu

Vicente Veloso. Do Auto da Canabrava

Eu sou Vicente Veloso

E vivo dentro dos mato

Fui escravo, fugitivo

Hoje, sou livre de fato

Vim de cima da montanha

Do arraial do Ventura

Pra lá de Morro do Chapéu

Trabalhava lá nas mina

Pertin de Jacobina

Onde as pedras trisca o céu

No ano quarenta e quatro

Do século mil e oitocentos

Eu vivia como escravo

Trabalhando como jumento

Vivendo desesperado

De tanto, tanto trabalho

Fazendo serviço pesado

Fosse noite ou sol a pino

Nunca acostumei com o fardo

Que tinha no couro grudado

Desde o tempo de menino

Um dia me perguntei

Se aquele era meu destino

Trabalhar até ficar velho

Trabalhar desde menino

E não vê o resultado

De tanto, tanto trabalho

Trabalhar até não prestar

Até ser posto de lado

Pois o dono do escravo

Mandado do céu não é

Depois de esgotar o sujeito

Quinze, vinte ano no eito

Lhe joga no meio da rua

Pra viver de esmolé

Pois o escravo quando velho

Já não guenta mais serviço

E fica veio, jogado

Como fosse um estrupiço

Um trem velho mulambento

Melhor não ter essa sina

Ter morrido pequenino

Um dia me perguntei

Se era aquele meu destino

Então, desorientei

E fiquei desplaneado

Daquela minha questão

Arrumei o resultado

Mas fiquei matutando

Sem saber se o fazia

Sem saber se me matavam

Ali mesmo na freguesia

Mas um escravo morto

Era de pouca valia

Não foi de caso pensado

Não foi uma maldade

Foi vontade de justiça

Dessas que anima e atiça

Que me chamou de verdade

E me disse, assim, baixinho

“Vicente, sabe a verdade

Está aí, em tu, aí dentro

Dentro do seu coração

Tanto a sua liberdade

Quanto a sua escravidão”

Então, animado e afoito

Fiquei com meu sangue quente

Recebi umas broncas

Do que se dizia meu dono

Que aquela minha moleza

Sofria por dor de dente

Era mode uma aguardente

Que sumiu de sua cabana

Eu disse, não, não fui eu

E não irei trabalhar

Ta vendo cá pra esse dente

Assim não vou agüentar

O diabo que tale dono

Pensou que o velho Vicente fosse

Não julgou novo o Vicente

E tentou dar-me com o açoite

Ali, mesmo, decidi

Não seria mais escravo

Não precisava de lei

Pra me haver libertado

Eu mesmo, preto Vicente

Orgulho da cor negra, carvão

Me libertei das correntes

Que me prendia não o braço

Mas o coração e a mente

E a espada da justiça

Em forma de velho facão

Usou das minhas duas mãos

Consegui minha liberdade

E dei, adeus, sem saudade

Para aquela escravidão

Aí, vixe, cai no mato

Subi serra, desci serra

Passei lajedo, beirada

Que beiradeiro não beira

Passei caatinga fechada

Sem lavoura nem fazenda

A não ser os gado e as roça

Que deus do céu, mesmo inventa

Caí no mato sem rumo

Caí no mato sem dó

Pois sabia que deus é grande

E o mato é muito maior

Me afastei o mais possível

Das terra de Jacobina

E de Morro do Chapéu

A apesar de ter passado

Fome e sede lá nos mato

Não ser mais um escravo

Me fazia sentir no céu

Valei-me São Benedito

Nossa Senhora do Rosário

Valei-me Jesus Cristo dos preto

Que padeceu no calvário

Cheguei lá num boqueirão

Duma serra que de longe

Era meio que azulada

Aqui ou então acolá

Um lajedo a branqueava

E embora, fome passasse

E o cansaço apertasse

A noite fria enginhava

O couro nu desde a tarde

A dor cresce o pé de pau

Os arvoredo e os animais

E nos homens foi a dor

Que trouxe a liberdade


Flávio Dantas Martins

quarta-feira, 26 de maio de 2010

uma canção (sem violão) escrita na madrugada feirense

diga que não quer, diga
diga que me odeia, que me despreza
desdenha quem tem apreço
por você, que não merece

mas não assuma nunca
que me pensa em sonho
que me come com os olhos
que me bebe com os dedos
que me aperta nos braços
que me morde os lábios
que me puxa os cabelos
ao menos
em teus devaneios

não diga
jamais
que me quer
que me pensa
que me persegue
que me espera
que me implora

prefiro que negue
até a morte
que me deseja

aceito que sempre diga não
quando quer sim

imploro que não faça
nenhuma loucura
por seu apreço a mim

finja
que lhe gosto atriz
por um triz
fulgaz

viva
nos meus poemas de giz

mas não morra
nos meus instintos animais

terça-feira, 25 de maio de 2010


somos regidos por Vênus
- regente do amor -
o meu, carnal, pecaminoso
o seu, divino, protestante

fomos gerados do amor
não sei quanto, nem aonde
nem se deu tempo pra durar

a vontade que tenho que dure o nosso
amor, violeta, escarlate, rosa
flor, incenso, mirra, vinho argentino,
cigarro
saudade

ah, vontade
de deitar meu corpo cansado de guerra
nos teus braços de plumas macias

cantar um poema no teu céu
e perecer de amor no fogo do teu inferno

ah, vontade
saudade

ah, mulher

somos do mesmo planeta
tu do ar
e eu do chão

ah, mulher
somos do mesmo barro
vermelho, amor, paixão

ah, mulher
deixa esse muro
vem pra meu barraco
e vamos viver do pão multiplicado no amor
e de vinho barato
de livros e discos que cultivo
de líros e gatos que crio
e crias são bichos ingratos

e só você, mulher
pra me alegrar
nesse mundinho
pequeno, mesquinho
e chato!

terça-feira, 11 de maio de 2010

um soneto feirense


Queria falar de amor
mas faltam palavras
sou pobre de lavras,
incapaz de as expor

sei o que o mesmo é
sei como é que se sente
tendo nos braços, presente
o calor de uma mulher

sei o que é preciso
fazer na situação
uma mistura impura

do abrangente e conciso
um misto de destruição
da doença e da cura

Feira de Santana, 11 de maio de 2010